*Por Matheus Carvalho

“Não mostro e não adianta insistir”. A frase que parece de moça pudica para namorado ansioso foi repetida várias vezes ao telefone por Evanivaldo Castro para a produção do Bahia Esporte. O ex-jogador recusava-se a nos fornecer imagens de gols contidas em um DVD que ele guarda com muito zelo no apartamento onde mora, em Salvador.
Misturando palavras e sotaques, o brasileiro mais mexicano do mundo da bola passou a maior parte da conversa se gabando e impondo condições para a entrevista. Estranhamente, não parecia entusiasmado com a reportagem e transmitiu amargura, vaidade e arrogância no primeiro contato que tivemos com ele.
A preocupação da equipe foi natural. Como conseguiríamos contar a história do baiano com o maior número de gols na história do futebol mundial sem poder mostrar os gols do protagonista? Por que louvar os feitos de alguém que parecia fazer aquilo melhor que qualquer um? Por que investir em um personagem tão cabotino e antipático? Ora, por uma razão muito simples. Além de um grande goleador, conheceríamos uma figura original, de personalidade forte e comportamento bastante peculiar. Tinha tudo pra render e eu estava animado!
Ao chegar ao local da pauta, eu, o repórter cinematográfico Joselito Gomes e o operador de áudio, Robel Sousa, logo percebemos que estávamos realmente diante de um personagem fabuloso. Aliás, um personagem, não. Dois. “Evanivaldo Castro é uma pessoa. Cabinho é outra”, disse-nos. A divisão digna da consagrada dupla Edson Arantes e Pelé é compreensível.
Assim como no caso do rei do futebol, o ídolo tornou-se muito maior que o indivíduo. Evanivaldo é um senhor de 61 anos, calvo, falante e extremamente religioso. Cabinho é um mito, maior artilheiro da história do futebol mexicano, sexto brasileiro com mais gols em competições oficiais, 32º maior artilheiro do futebol mundial em todos os tempos. Nem Ronaldo Fenômeno nem Diego Maradona têm tantos gols.
Ao falar de si mesmo, opta sempre pela terceira pessoa, deixando bem claro que quem está ali é Evanivaldo a falar sobre Cabinho. “Cabinho Foi um fenômeno”. “Cabinho fez sete gols em um mesmo jogo”. Cabinho foi muito melhor que Romário”. “Cabinho é um garanhão”.
O apelido beatificado pelos torcedores mexicanos surgiu na infância na cidade baixa. O garotinho sempre acompanhava a mãe quando ela, uma cozinheira de mão cheia, vendia comida na vila militar. Ao ver os cabos do exército fazendo exercícios no quartel, o pequeno Evanivaldo os imitava. Pronto! Virou Cabinho e o apelido pegou.
A carreira como atleta começou no Botafogo, time extinto, mas que tinha muita tradição no futebol baiano. Ele passou também pelo Palmeiras, fez sucesso na Portuguesa e se mandou para o México em 1974. Conquistou títulos na equipe do Universidad, jogou no Atlante e foi artilheiro do campeonato nacional 7 vezes consecutivas. Segundo ele, uma marca que nenhum jogador jamais conseguiu em qualquer lugar do planeta.
Durante o papo, insistimos muito para que ele mostrasse os gols gravados naquele misterioso DVD. Cabinho manteve-se irredutível, mas descobrimos vários gols e grandes jogadas do craque na internet. Vídeos editados por torcedores que sentem saudade do atacante que ficou conhecido como O Rei do Gol!