Inspiração

February 7th, 2010

Fabio Andre Silva Reis

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inspiracao

Foto: Fabio Andre Silva Reis.

Há determinados momentos em que falta inspiração. Faltam palavras, frases e ideias. Os espaços vazios do papel intimidam. Não consigo escrever um parágrafo sequer. Tudo parece desprovido de graça e aromas. A inspiração é uma noiva em fuga. Qual uma semente em terreno árido, nada floresce, nada surge.

Há dias em que nada funciona. O carro enguiça por um motivo desconhecido, o corpo começa a sentir os efeitos de uma virose qualquer, o café tem gosto de chá de milho e madeira, a internet não funciona.

Há noites em que a produtividade é nula. O cérebro empaca, não responde aos estímulos mesmo afogado em goles e mais goles de café expresso. As mulheres ficam imunes ao meu charme. Fracassos sucessivos numa mesma noite. Não esboçam qualquer reação amistosa às minhas palavras e quando a noite parece promissora, mostrar-se-á flácida ao final.

Em outras ocasiões tudo flui sem o menor atrito. Uma fagulha de energia é o bastante para que palavras pululem, frases surjam, três ou mais textos sejam criados sem sequer provocar fadiga. A inspiração é uma mulher sedutora e apaixonada, uma semente em terreno fértil a produzir flores e frutos dos mais diversos. O time do coração dá de goleada e me despeço dos seus lábios ainda com energia de sobra.

Basta um olhar para conquistar a mais sisuda das mulheres. Um leve sorriso para amolecer o mais sólido obstáculo. Tudo acontece com efeitos além do esperado. Até a conta bancária recebe alguns dividendos inesperados e não fica negativa.

Há também aqueles dias que iniciam sem qualquer inspiração, mas, ao menos, terminam com um texto honesto.

(Escrito em: Salvador-BA, 10/12/2009)


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Sê inteiro.

January 31st, 2010

Tissiana Berenguer Cavalcante
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Vanessa me procurou ontem, no meio da madrugada. Como Sophie (Calle), ela estava em busca de alguém que pudesse compreendê-la e dar ordem ao caos mental em que entrou desde que terminou com seu namorado, na semana passada. “Nunca pensei que terminar uma relação fosse motivo de tantos elogios e parabéns” – desabafou ela. Não que o rapaz fosse alguém de quem ela devesse ter se afastado antes, longe disso! A questão é que é difícil tomar a iniciativa de terminar quando o outro se mantém “em cima do muro”, ignorando que algo se perdeu pelo caminho.

Como diria Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é CORAGEM. E Vanessa teve coragem, sim, para interrogar o sujeito se o que ele queria era, afinal, “namoro ou amizade”. Coragem de escutar a resposta: a-mi-za-de. É verdade que, segundo ela me narrou, ele disse isso quase que sem voz, meio hesitante… mas nada pusesse em questão a veracidade da informação – hesitou por medo de magoá-la. E a minha amiga, doida ou sabiamente, reagiu: “Dói não, Nego… dói mais a dor da dúvida”.

E Vanessa partiu. Aos pedaços, mas partiu. Não tinha dúvidas, porque não tinha escolha. Só tinha uma certeza diante daquela revelação: ela queria “mais”. E resolveu cortar o cabelo, mudar de vida e trocar de poeta. Deixou de lado Cazuza, argumentando: nem “raspas” nem “restos me interessam”. Preferiu ficar com Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro”. E foi em busca da sua completude.

(Escrito em: Salvador-BA, 05/12/2009)

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Pintura a Óleo: Antônio Cabral

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Palavras finais

January 22nd, 2010

Fabio Andre Silva Reis

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palavras finais

Foto: Fabio Andre Silva Reis.


29 de setembro de 2006. Dia das secretárias. Na calçada em frente ao mar da Barra, ouço sua voz ao telefone. Conversamos trivialidades em meio à brisa soteropolitana, leve e constante. Ouço sua voz cansada, mas feliz pois, afinal, foi uma boa ideia adiantar o seu retorno, previamente programado para o dia seguinte. Que sorte termos encontrado assento disponível no voo de sexta-feira. A saudade já estava apertando.

Você sugere um final de semana prolongado no Litoral Norte a partir de amanhã. Eu concordo sem pestanejar. Está decretado! O nublado do céu logo fica ensolarado e a brisa torna-se mais morna. Você sabe mais do que ninguém o quanto eu gosto do ócio não-produtivo, das surpresas, do andar distraído protegido pelo acaso (como na música dos Titãs) e da falta de rotina. Já penso em preparar o roteiro da viagem, passar no mercado e checar o nível de óleo e a pressão dos pneus do carro.

Excesso de trabalho, semana cansativa, pouca grana. Eu concordo com cada uma das suas pequenas lamentações. Já as conheço ainda de longe, ainda que vindas do calor manauara. Nem por isso elas deixam de ser sedutoras. Sei que você tem prazer no que faz. Sei que esses pequenos lamentos são a deixa para minhas palavras de conforto.

A ligação já dura mais de quinze minutos. Preciso desligar. Preciso retornar ao restaurante e compartilhar os momentos finais do almoço junto aos colegas de trabalho. Pequenas lamentações minhas que servem de deixa para as suas palavras de conforto.

Beijos e boa viagem. São as minhas palavras finais. Beijos e saudades são as últimas palavras suas ditas ao meu ouvido. Uma delas, ainda hoje, sinto reverberar na leve e constante brisa soteropolitana.

(Escrito em: Sheffield-UK, 26/11/2009)



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Mulheres à Beira…

January 16th, 2010

Pintura em óleo: Márcia Berenguer
Tissiana Berenguer Cavalcante
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Nós, balzaquianas, somos “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. São tantas as demandas, desafios e metas que acabamos nos tornando um pouco insanas. Não que saiamos por aí jogando pedras pela rua, ou agredindo qualquer passante. O que acontece é que, acometidas de certos esquecimentos, passamos a ter comportamentos um tanto quanto estranhos. E não os contamos pra ninguém, com medo de ser novamente jogadas na fogueira, como loucas…

Aos 20 anos, vivíamos ‘ligadas em tudo’, líamos 3 livros ao mesmo tempo, prestávamos atenção a tudo e ainda conseguíamos trabalhar (com competência, diga-se de passagem) após uma noite “perdida” na Salsa. Agora, padecemos de dois limites: a fadiga física e a mental. Também, não é pra menos: quem consegue dar conta de filho, trabalho, casa, dinheiro…?

Eu juro que estava preocupada com meus esquecimentos e atos-falhos… outro dia, ao invés de pegar minha mochila para ir à academia, cheguei lá com roupa de malhar e 4 livros a tiracolo. O pessoal me olhou de soslaio e um arriscou me perguntar se, ao longo da malhação, eu iria ler tudo aquilo mesmo. Só então me dei conta da minha “troca” e saí pela tangente, dizendo que dali iria a uma biblioteca.

Pois é, eu vinha muito inquieta, até ouvir outras histórias semelhantes das minhas amigas. Aí me acalmei, pois me sinto um pouco mais ‘normal’ agora – ou, pelo menos, não me sinto sozinha na loucura.

Luciana saía de casa, na semana passada, para ir ao mercado, quando sua mãe lhe pediu: “filha, você aproveita que está descendo e joga esse saquinho no lixo da garagem?”. Ao que ela prontamente atendeu. No mercado, comprou tudo, pegou a fila do caixa e só quando foi pagar é que se deu conta: estava com o saquinho de lixo que sua mãe lhe dera. A bolsa? Advinhem…

Essas histórias de mercado são ótimas. Talvez por que ir às compras nos faça entrar em contato com a atual condição feminina de ter que ser “múltipla”. Compramos produtos para crianças, para a casa, para o marido (ou namorado), para nossa beleza e, até, material de escritório. Acho que isso mexe com nossos hormônios e estes, com nossos neurônios, porque os casos se multiplicam…

Debi, outra amiga, passou o maior vexame no mês passado. Foi fazer suas compras, pagou e se dirigiu ao estacionamento. Quando estava no meio do caminho, começou a ouvir ao longe um chamado: “Senhora…”. E ela nem se virou (imaginando que alguém se referia a alguma idosa). Mas a voz persistia e só quando já estava mais próxima foi que olhou para trás e viu um funcionário vindo apressado empurrando um carrinho: “A senhora não vai levar suas compras, não?” – ela as havia esquecido no caixa. E se fez de doida – “Mas é claro que vou levar!” – pra ver se o cara não perguntava mais nada.

A outra, saindo de casa apressada, pegou o guarda-chuva que estava no cabideiro, misturado com as roupas, e desceu o elevador. Um vizinho lhe olhou com certo estranhamento – seria uma nova modalidade de paquera? Passou pelo porteiro… idem. “Mas que ousadia!” – pensou. Só quando foi abrir o guarda-chuva, já na calçada, foi que se deu conta: nele estava preso um sutiã. Um sutiã???!!!! O “premiado” veio junto, quando tirou o guarda-chuva do cabideiro. Guardou-o rapidamente na bolsa e saiu pensativa. Talvez fosse um desejo inconsciente de atear fogo nele: afinal, alguém precisa tomar alguma providência, antes que tenhamos um ataque de nervos!

(Escrito em: Salvador-BA, 20/11/2009)

Pintura: Márcia Berenguer

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Reticências

January 8th, 2010

Fabio Andre Silva Reis

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reticencias

Foto: Fabio Andre Silva Reis.

Eu escrevo porque meus pensamentos não cabem em mim. Escrevo porque meu escrever é parte inseparável do meu pensar. É extensão natural do meu corpo. Quando não escrevo, minhas ideias evaporam, voláteis que são. Com minha pena úmida em contato com a folha de papel vislumbro o amorfismo dos meus pensamentos.

O atrito da ponta da caneta deixa marcas indeléveis nos contornos do papel. Serão pegadas a percorrer e interpretar. Serão caminhos muitas vezes íngremes e pedregosos. Borro, apago, reviso e rescrevo. Controlo cada passo, cada marca e também a ordem das palavras. Escolho o adjetivo que melhor traduz aquela qualidade idealizada. Lapido as farpas e os cantos impolidos. Escrevo porque tenho a chance de controlar. Deve ser por esse motivo que prefiro os filmes às peças de teatro. Prefiro a exatidão de uma cena gravada à exaustão do que o improviso profissionalmente transpirado à cada espetáculo.

Se viver fosse escrever, eu faria alguns retoques nos textos passados e daria forma aos textos futuros. Infelizmente, escrevo apenas o presente. É esse o único texto que controlo e tento dar forma, a apagar, revisar, tornar a escrever, e às vezes até tocar fogo no papel para usar as cinzas como tinta dos futuros textos presentes.

Sigo assim, a contornar delicadamente a superfície do papel com minha caneta, a pressionar as retilíneas formas do teclado com minhas mãos e a deixar a marca dos meus passos. Às vezes, suavemente. Outras vezes, com força. Movimentos incisivos e preguiçosos até o ponto final ou… até às próximas reticências…

Paro de escrever. Respiro. Novas ideias. Novos caracteres numa folha em branco. Então, ideias transformam-se em pegadas sobre um papel vazio. Então, as marcas de um pensamento fugidio viram bits e bytes. Do intangível ao tangível e de volta ao intangível.

Escrevo porque escrever pressupõe intimidade. Meus pensamentos traduzidos nas palavras tocam sua retina e invadem seu mundo. Eles produzirão novos pensamentos, não necessariamente aqueles por mim imaginados. Qual uma música que desperta aromas, memórias e imagens sequer pensados pela autora. Qual um vírus mutante que toma conta do sistema e foge ao controle do programador. Minhas palavras tornar-se-ão outras intenções, efeitos inesperados, outros textos.

Escrevo porque desperto sensações nos outros, ainda que à distância. Textos são projéteis, barulho e impacto. Sequer saberás de onde vêm as palavras. Quando pensares que lhe tocam os lábios, elas atacarão em outras frentes… ou costas. Palavras sussurradas ao ouvido, letras descendo pelo pescoço, exclamações bem apertadas à cintura, reticências… Escrevo porque minha libido escapa aos limites do meu corpo. Evapora pelos meus poros. As palavras liberam hormônios, arrepiam pelos, deixam marcas e lembranças até o ponto final…. ou até às próximas reticências…

(Escrito em: Sheffield-UK, 13/11/2009)

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Mas eu gosto de você

January 3rd, 2010

Tissiana Berenguer Cavalcante
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“Você não vale nada, mas eu gosto de você… tudo o que eu queria era saber por quê.” É impressionante o sucesso que essa música vem fazendo atualmente, usada em novelas, propagandas, programas humorísticos… e, também, por nós. Sim, fazemos piadas com ela, brincamos com nossos parceiros… a achamos engraçada, é fato, mas não paramos para pensar no seu real significado.

Talvez o verdadeiro sucesso dessa música se deva não exatamente ao seu lado cômico, mas à sua capacidade de despertar algo em nossos inconscientes. Ainda que de forma jocosa e, até, desrespeitosa, ela acaba, despretensiosamente, tocando num tema delicado: o mistério que envolve o amor. Se ‘a mocinha não vale nada’, por que então ela é amada? Não deveria ser o contrário?

A resposta é NÃO. Não, porque simplesmente não existe esta correlação lógica. De fato, ninguém nunca sabe por que ama alguém. E se disser que sabe, é porque não é amor de verdade: é capricho. Porque amor de verdade não se escolhe. Não se governa. Ele simplesmente acontece, quando menos se espera e de uma forma tão misteriosa que quem ousar explicar as razões por que ama, cai logo no descrédito.

Lembro-me que uma grande amiga me perguntava sobre o meu primeiro amor: “Por que você gosta dele? O que você vê nele para gostar?” – ao que eu respondia: “Gosto porque gosto.” E dava um ponto tão final e convicto que ela ficava atônita. Anos depois, ela me confessou a espécie de inveja que sentia ao me ouvir falar isso: como deveria ser bom sentir um amor tão “gratuito” e “inexplicável”! Era isso o que ela procurava e, depois, encontrou – e agora diz: “Gosto porque gosto”.

Recordo-me, também, de ter ficado perturbada com o questionamento desta amiga e ter, por conta disso, partido para questionar, igualmente, o rapazinho. Confesso que tive medo da sua resposta, mas resolvi encarar o risco dele me trazer explicações racionais. Para a minha felicidade, entretanto, ele se mostrou perdido diante da minha pergunta e me respondeu um vago “Não sei não…”. Ufa, que alívio! Como era bom saber que eu não estava só nas profundezas do mistério… e nem ‘sozinha no amor’.

A nossa música ‘inspiradora’, assim, independentemente de agradar aos ouvintes ou não, tem o mérito de nos lembrar que a força de um amor vem justamente da sua impossibilidade de explicação. Está discordando de mim e quer fazer um teste? Pergunte ao seu companheiro se ele gosta de você. Se ele ficar vacilante e não conseguir articular bem as idéias, CASE com ele. Já se ele apresentar de pronto respostas… saia correndo! É fria!

(Escrito em: Salvador-BA, 02/11/2009)

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Anexos

December 25th, 2009

Fabio Andre Silva Reis

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anexos

Foto: Fabio Andre Silva Reis.

Que os aromas, melodias, sabores, texturas e olhares sigam anexos a esse e-mail.

Que as fotos manifestem as emoções, os medos, as surpresas e as músicas do ambiente. Desejo que exprimam o calor dos raios de sol ao final da tarde, diante do mistral espremido entre o verão pretérito e o inverno a acontecer. Espero que tornem presentes os diálogos de um passado recente. Talvez consigam descrever a complexidade daquele belo sorriso capturado pela lente e pelos olhos do fotógrafo.

Que as palavras aqui escritas reflitam os pensamentos que brilharam seu momento de estrela. Desejo que carreguem em cada letra o perfume do dia, o amanhecer preguiçoso, o espreguiçar baiano e o lento caminhar dos passos sobre a calçada.

Que as músicas tocadas e os cenários vividos impregnem de vida cada parágrafo, cada frase, cada palavra, ponto, vírgula e reticências. Quero notas musicais cantando o uivo dos ventos, o silêncio da noite e o chacoalhar dos frutos nas árvores.

Que esse e-mail siga lento como uma carta, levando consigo o perfume da fonte, os aromas do caminho e as lembranças vivas dos seus anexos. Que chegue lento e intenso ao seu destino. Cumprirá sua sina caso consiga transformar minhas palavras sementes em frutos pensamentos seus.

Que os caracteres sobre este fundo branco manifestem as palavras ditas e, acima de tudo, os pensamentos velados, os silêncios e a hesitar tão impunemente vivido. Desejo que traduzam toda a complexidade do momento sentido cujo significado somente depois conseguiremos compreender.

Que seja som, silêncio e anexos, mas seja vivo.

(Escrito em: Marseille-France, 18/10/2009)

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Cuide de Você

December 20th, 2009

“Cuide de Você”

Tissiana Berenguer Cavalcante

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CARTA ESCRITA À ARTISTA PLÁSTICA FRANCESA SOPHIE CALLE PELA EXPOSIÇÃO “CUIDE DE VOCÊ”.

Cara Sophie,

Não nos conhecemos, mas creio que isso não seja um impedimento para o meu propósito – afinal, se você pediu a 104 mulheres para darem sentido ao e-mail de rompimento do seu namorado, por que não posso ser, voluntariamente, a 105ª?

Não sou famosa, não tenho expertise alguma nem contato com você para ser incluída na sua exposição, mas faço parte do público que a visitou e que, de alguma forma, sentiu-se tocado pelo que viu. Gente que também já deixou e foi deixada e que sabe bem quão “insonora” é a expressão “se cuide”. E é assim, enquanto platéia, anônima e “mulher comum” que me permito, aqui, lançar a minha reflexão.

Não focarei, entretanto, naquele e-mail tão rico em poesia quanto pobre em expressão. Um e-mail banal, que poderia ter sido escrito por qualquer outro homem, contendo frases universais, que ultrapassam fronteiras culturais e idiomáticas. Quem nunca ouviu um “se cuide”? Ou um “eu sempre vou amar você”?

O que me chama a atenção, então, não é o e-mail tão “clichê” do rapaz, a quem faltou coragem e sensibilidade para dizer tudo frente a frente, como um homem – verdadeiro – o faria. O que me incomoda, sim, é a forma como você lidou com ele. A meu ver, pouco importa o que ele sente, SE sente, o que disse ou deixou de dizer – mais vale refletir sobre como VOCÊ processou tudo isso.

Ser deixada não é fácil (e eu bem sei!), mas não creio que seja no colo de uma multidão desconhecida que você encontrará o acolhimento necessário à superação da dor. Inspirando-me em Rilke, “cherchez-em vous-même”: procure em você mesma, no espaço mais íntimo do seu ser, o sentido das coisas. Mesmo que esta resposta não engaje o “verdadeiro” sentido – pois a verdade, nesses casos, não é passível de ser identificada. Nunca sabemos ao certo o ponto de rutura de uma relação. O que podemos fazer é apenas elaborar o término, dando-lhe o sentido que nos for mais plausível e, portanto, mais fácil de ser aceito.

Concentre sua energia em si mesma, Sophie. Nada do que digam ou façam poderá abrandar a sua perda. Ela é sua e só você pode decidir o que fazer dela. Este término, desta forma, com este e-mail, é um fato. Já foi. Teve que ser assim – não perca tempo lamentando o que poderia ter sido diferente. Coloque seu foco em si, procure se valorizar, cuidar da sua auto-estima e simplesmente ACEITAR que PASSOU. E se passou, pra que ficar revolvendo a terra?

Siga em frente, deixe a energia fluir. Este homem, que termina uma relação desta forma, merece tanta consideração assim? E se você merece mais, dê a si mesma o que precisa: vire a página. Só assim você poderá escrever uma nova história.

(Escrito em: Salvador-BA, 01/12/2009)

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Invisível aos olhos

December 11th, 2009

Fabio Andre Silva Reis

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invisivel

Foto: Fabio Andre Silva Reis.

Um domingo calmo e ensolarado é o nosso cenário. Espalhamos todos os carrinhos, bonecos, bolas e demais tralhas infantis no chão do quarto. Sempre tive especial interesse pelos brinquedos de montar. Ele começa a brincar com a massa de modelar, mistura cores, amassa, junta pedaços disformes e, depois de algum tempo, saciado, coloca a obra sobre a mesa.

  • Bela montanha! – digo com dificuldade para discernir o que seria aquele objeto disforme.

- Isso não é uma montanha papai. É minha nave espacial com turbinas de fogo pronta para nossa viagem ao planeta Marte.

Mais uma lição.

Os nossos olhos se acostumam ao observável e se torna cego aos movimentos imperceptíveis, ao velado, ao não dito, às oportunidades que vêm e vão. Perdemos a capacidade de enxergar com a mente. E, pouco a pouco, ela se atrofia. No fim, terceirizamos o trabalho dos nossos neurônios.

Na escola fui desaprendendo a imaginar e aprendi a decorar: fórmulas, regras e tabelas. No trabalho, não há tempo para devaneios nem pensamento crítico. A imaginação é vadiagem proibida e eu preciso pagar as contas que insistem em aparecer. Ainda aos trinta e poucos anos incompletos, acredito apenas no que vejo, no que é cru aos meus sentidos, e o que vejo é apenas a ponta do iceberg. O reflexo da luz que viaja e atinge a minha retina é mera fagulha do real. O essencial é invisível aos olhos.

Dinheiro não é real. É invenção humana, cada vez mais desprovida de lastro físico tangível. Uma casa velha e acabada aos olhos de alguns, será o marco inicial de uma grande rede de hotéis, quando vista por olhos empreendedores.

Mulheres não são reais. Gordurinhas, imperfeições e pernas não-torneadas podem ser a sentença de morte aos pensamentos libidinosos de alguns homens pouco criativos. Contudo, aos olhos mais atentos, serão a chave para a verdadeira beleza feminina, prestes a explodir, escondida sob as várias camadas; aquela que se vê quando fechamos os olhos e que nos envolve por completo.

Nós não somos reais. Seremos aquilo que nossa mente venha a imaginar. O dedo arrancado num torno mecânico, pode ser o dedo da mão que hoje assina documentos  palacianos.

  • E aqui está a cabine do comandante. E ali o escudo anti-mísseis inimigos.

- Ótimo, filho! Então é melhor vestirmos logo nossa roupa protetora contra raios-ultravioletas, pois o comandante já ligou os motores.

(Escrito em: Sheffield-UK, 14/10/2009)

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Morando Só

December 4th, 2009

Tissiana Berenguer Cavalcante
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É uma delicia morar só. A gente leva a vida no nosso ritmo, come na hora em que dá fome, lê até tarde sem incomodar ninguém e ainda pode tomar banho com o som nas alturas, pra ouvir a música bem debaixo do chuveiro. Outra coisa boa é você acordar e nem precisar se olhar no espelho… e poder andar pela casa com aquela roupinha de malha mais velha que você tem, já mais fininha, de tanto lavar, e decorada com alguns furinhos feitos pelo tempo. Uma das melhores coisas de se morar sozinha, aliás, é justamente ‘não ter que ser sexy’. É muito bom morar só : a gente experimenta uma sensação de liberdade, autenticidade e apropriação do nosso espaço que nunca imaginamos poder ter.

Mas é claro que nem tudo são flores… há algumas situações em que a falta de uma figura masculina (sobretudo para as que já foram casadas) se faz mais evidente. Trocar a lâmpada, por exemplo, é uma tarefa simples, mas… e quando o pé-direito da sua casa é alto demais ao ponto de uma escada básica não ser suficiente ? A gente chama o porteiro. E aí ‘regride’, mesmo, se mostra frágil e infantil (« moço, me ajude… »), pra ver se ele se sensibiliza com a nossa situação e vem nos acudir. E ainda temos que agradecer a Deus por morarmos no Brasil, pois se fosse fora, não teria nem porteiro a quem recorrer…

Quando se mora num prédio de escadas, aí sim, temos outro grande desafio : subir com as compras do mercado. Não tem porteiro que dê jeito, porque haja boa-vontade pra toda semana a gente pedir uma coisa dessas, né ? De tanto me estressar com isso e mal-dizer a minha condição de solteira toda semana a cada degrau (e olha que são 36 !), dei uma ordem a mim mesma e me proibi de « fazer um mercado grande ». Pronto, decisão tomada : vou comprando um paozinho aqui, um leitinho ali, um sabãozinho em pó… e todo dia eu trago uma sacolinha pra casa, sem sofrimento ! Já o galão de água mineral… tudo bem que a distribuidora traz até aqui em cima, mas… e quem coloca no lugar ?

Agora o fim da picada, mesmo, foi o dia em que eu cheguei em casa, vindo de uma festa, e antes de abrir a porta percebi que a luz do meu apartamento estava acesa. Aí não teve jeito, tive que apelar para o amigo (nessas horas tem que ser amigo HOMEM !) que havia me dado carona : « João, querido, dá meia-volta e vem aqui, por favor, que eu não tenho como entrar em casa… ». Mas fiquem tranquilos, não era ladrão – foi apenas uma pane elétrica. Morar só é uma delícia, mas dá curto-circuito.

(Escrito em: Salvador-BA, 22/10/2009)

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