Não sei por que, o post anterior me fez lembrar Coutinho, o mestre brasileiro do cinema documentário. Acho que pelo quesito experimentação. Não que Sou feia, mas tô na moda (2005) tenha muitas experimentações, mas acho que foi o apelo que fiz aos novos estudantes da área para que experimentem que me fez lembrar o mestre. Em Jogo de Cena (2007), Eduardo Coutinho dá uma aula de experimentação. O documentarista despe-se de tradições e preconceitos para levar para tela uma obra cheia de hibridismo onde realidade e ficção se visitam a toda instante. Para quem não conhece a história, eu conto. Jogo de Cena é construído a partir do depoimento de mulheres sobre as suas vidas. O detalhe do filme, no entanto, não está apenas na história de cada mulher, mas na forma que Coutinho escolheu contar. Ele mescla o depoimento de atrizes com os das mulheres entrevistadas para o documentário. Em alguns momentos, as atrizes contam sua própria história ou relatam como é interpretar a história da outra. Está precisando de inspiração? Então visita a obra do Coutinho!
A dica deste post é para quem está fazendo Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e o produto é um documentário. Este trabalho de Denise Garcia é um bom exemplo do que pode ser feito em vídeo. Não é novo, mas é atual, muito atual.
Chamo a atenção exatamente para o uso do vídeo. O estudante, muitas vezes, diante da película do cinema, acredita que o sonho de realizar um filme está distante das suas possibilidades. Atribui valor menor à produção em vídeo e deixa escapar a possibilidade de experimentar e realizar belos trabalhos. Mas Denise Garcia mostra exatamente o contrário. Foi o vídeo a ferramenta utilizada por ela para contar a história do funk carioca em Sou feia, mas tô na moda e a diretora abusou, no bom sentido, da experimentação de planos, enquadramentos, movimentos de câmera.
Vejo o resultado como um verdadeiro estímulo aos futuros cineastas. Mas o outro grande problema do estudante de comunicação que resolve mergulhar neste universo é confundir documentário com telejornalismo. É claro que beber nas fontes é enriquecedor, mas as amarras do telejornalismo muitas vezes acabam cerceando a criatividade. Por isso, caríssimos, libertem o espírito e deixem a alma viajar por lugares inimagináveis. Depois, é só entrar na ilha (de edição) e colher os frutos.
Sempre fui uma admiradora das HQs. Aos 14 anos, tive que fazer uma cirurgia e ficar de repouso durante semanas. Fiz um acordo com a minha mãe. Ela compraria todas as revistas em quadrinho e eu ficaria quietinha em meu canto. Que período fantástico! Hoje, acompanhar no cinema os meus heróis dos quadrinhos é uma experiência, no mínimo, curiosa. Antes de entrar na sala escura, você fica pronta para se colocar nos extremos: aquém ou além de tudo que você imaginou. Quando sobem os caracteres de Wolverine você fica a pesquisar a mente em busca das brechas deixadas por Gavin Hood. Podem até existir, mas quer saber? Tô nem aí. Hood é meu Herói!
Em busca de uma nova história cinematográfica, vasculhei as prateleiras da locadora de vídeos e encontrei esta obra de Sidney Lumet. O diretor e o elenco já me empurravam para o caixa, principalmente Phillip Seymour Hoffman. Na época do lançamento, em 2007, o filme já tinha conquistado as manchetes dos principais veículos especializados em cinema, mas acabei sem conseguir assistir. Que bom que existem os DVDs! O filme conta a história de dois irmãos endividados que resolvem assaltar a joalheria dos pais. O conflito por si só já é intrigante e ele vem recheado de sentimentos e sensações que nos conduzem a uma reflexão sobre a natureza humana. A forma de contar a história torna a trama ainda mais interessante. Ao mesmo tempo que o roteiro do filme brinca com os contrapontos narrativos, Lumet explora as alternâncias de planos referentes a mesma cena. Um jogo de planos e contraplanos que dá dinamismo a estrutura narrativa do filme como um todo.
Não é novidade que a construção de um personagem é fundamental para garantir um bom filme. Mandam, os manuais de roteiro, que antes de se começar a história se descreva cada um com a máxima riqueza de detalhes. Afinal, estamos sempre contando a história de sujeitos e seus conflitos. No entanto, em Passageiros (2008), o detalhe está exatamente na superficialidade da história de cada personagem.
Com exceção dos principais, todos os outros nos são apresentados sempre de forma evanescente. O segredo da trama está exatamente aí, em não contar detalhes, o que gera no espectador uma certa angústia. Aos poucos vamos conhecendo Claire (Anne Hathaway) e Eric (Patrick Wilson) que nos conduzem por este misterioso universo de um acidente aéreo. A impressão que temos é que quanto mais o tempo passa, menos conhecemos a trama.
De repente ficamos atônitos quando Eric descobre a origem do cachorro que o perseguia. O encontro de Claire, na porta da casa da irmã, com o misterioso homem da companhia aérea nos desperta para o todo. Difícil é saber se seguimos com Claire, correndo pelas ruas, ou paramos ali e remontamos o filme cena a cena em busca de respostas.
A fórmula não é nova, mas pôde ser utilizada com eficiência mais um vez. Pobre, no entanto, é a maneira que Rodrigo Garcia escolheu para explicar o mistério: no lugar da ação, o verbo.
Com planos longos e câmera estática, Roy Andersson mergulha no universo, ao mesmo tempo cômico e dramático, de seus personagens para narrar histórias de sonhos, desilusões, neuroses, medos e desejos. Os casos têm uma forte relação com a cultura do país em que estão inseridos, a velha Suécia, mas, em muitos pontos, apresentam características universais. O ritmo do filme é lento, até mesmo pela opção do diretor por planos de duração mais longa e por manter a câmera quase o tempo inteiro presa ao tripé.
Quanto ao conteúdo da narrativa, há um certo desequilíbrio entre as histórias. Enquanto algumas são bem construídas e se destacam pelo humor e sagacidade, outras se perdem num vazio de significações. Reconheço que não é simples manter o equilíbrio quando se trabalha com 57 histórias que se interligam ou simplesmente caminham paralelamente.
Vale destacar ainda o uso constante do fora de campo. Andersson brinca o tempo inteiro com aquilo que o espectador não vê, mas está contando com a existência. É um exercício cinematográfico muito bem desempenhado pelo diretor sueco.
Na semana passada, fui assistir ao filme Dúvida (2008) com Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman. Mesmo com toda a divulgação por conta do Oscar, eu ainda não tinha lido uma linha sequer sobre o filme. Não gosto muito de saber sobre a história antes de entrar na sala de cinema. Gosto de ser surpreendida por cada cena e suas costuras. Com Dúvida, pude aproveitar ao máximo esta experiência. Mergulhei nos sentimentos de John Patrick Shanley e viajei com ele em cada detalhe da obra. A narração mais lenta que a de costume para um filme da indústria americana, com planos de até 10 segundos, nos permite um exercício de fruição mais denso e prazeroso. Não espere, caro amigo, que aqui eu conte detalhe de qualquer cena. Minha dica é que, assim como eu, mergulhe de olhos vendados neste universo e vá retirando a vendas aos poucos para no fim só restar a certeza de que Dúvida é uma experiência fantástica.
Quando li a sinopse de Gran Torino (2008) pensei duas vezes antes de entrar na sala de cinema. A minha sorte é que nem sempre permito que o meu lado ariano fale mais alto e acabo deixando-me seduzir pelo ‘vamos, vai ser bom!’. E foi, foi muito bom. Se eu deixasse de assistir ao filme por conta daquela sinopse maldita perderia um daqueles preciosos momentos da singela genialidade cinematográfica. Falem tudo dele, mas que Eastwood sabe fazer cinema, melhor, fazer bom cinema, é fato. A história do velho americano ranzinza pouco disposto a aceitar os imigrantes que tomam conta da sua vizinhança é só um pretexto para se falar em diferenças, em aceitar as diferenças. Gran Torino é um retrato do que se tornou o Estado americano, um Estado plural, uma nação de muitos e diversos, mas ao mesmo tempo um lugar onde a intolerância parece arraigada em casa indivíduo. O branco que não tolera o negro que não respeita o amarelo que não entende o branco. Ou tudo vai além da cor da pele, está na maneira de ver o mundo e se relacionar com ele, está na cultura. É este o universo que Clint Eastwood traz a tona em Gran Torino. O resto é pano de fundo.
Fazia tempo que não chorava tanto depois de assistir a um filme. Nem quando acenderam as luzes do cinema eu fui capaz de parar de chorar. O leitor (2008) é um verdadeiro clássico cinematográfico como há muito eu não via. Quando eu assisti ao filme, já havia saído a lista dos indicados ao Oscar 2008 e eu saí da sala de arte do Museu com a sensação de que seria ele o escolhido e que Kate Winslet levaria a estatueta de melhor atriz. Não teria ‘efeito especial’ capaz de fazer O Curioso Caso… levar o prêmio. Tudo bem que não tinha visto ainda Quem quer ser um milionário (2008) e mesmo que tivesse visto não apostaria uma ficha sequer no filme Bollywoodiano. Afinal, o meu olhar era de uma apaixonada por cinema e não de uma produtora preocupada com os bastidores das relações político-cinematográficas. Sei que pouco importa para o grande público, mas o meu Oscar vai para O LEITOR!
Quer dar boas risadas e ao mesmo tempo se ver embebido por uma história delicada e sensível? Então assista ao último filme do diretor e roteirista Michel Gondry, Rebobine, por favor. Para quem não lembra de Gondry, ele é o mesmo de Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004) outra obra que prima pela sensibilidade. Em Rebobine, por favor o riso é mais frouxo e constante, mas a delicadeza é a mesma. O filme faz uma verdadeira homenagem ao cinema.
Cristina Mascarenhas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mestre em História das Ciências. Trabalha com pesquisas na área de Cinema, TV e Vídeo e é editora do Núcleo Rede Globo da TV Bahia.