
Morgan Freeman e Matt Damon
Apesar ser um dos filmes mais regulares de Clint Eastwood e de ter clichês em profusão, Invictus, em cartaz nos cinemas, cumpre seu papel de um bom filme de entretenimento, dosando espetáculo com mensagem, com a maestria que é peculiar ao diretor de Menina de Ouro e Gran Torino.
Para contar a história real da cruzada do recém-eleito presidente Nelson Mandela – líder rebelde da resistência anti-apartheid na África do Sul e Prêmio Nobel da Paz (1993) –, no intuito de unificar uma África do Sul fraturada por quatro décadas de apartheid, Eastwood se esteiou na fórmula que já conhece, que é algo como as armadilhas para pegar moscas: atrai o espectador desde a primeira cena e, uma vez que ele esteja atrapado o enreda, segurando-o pelo visgo.
Com um roteiro baseado no livro “Conquistando o Inimigo”, do jornalista John Carlin, e com o apoio efetivo de Morgan Freeman, um dos produtores executivos da película e ator que deu vida à personagem histórica do qual é amigo e admirador, o filme conta como Nelson Mandela soube se aproveitar politicamente da escalada do Springboks, seleção nacional de rúgbi, na copa do mundo que teve lugar na África do Sul. Com um detalhe que mudou tudo: o time era um ícone do Apartheid, mas que, em 1995, estava aos pedaços, como a África do Sul.
Em um país que ainda inspirava cuidados, com os ânimos exaltados tanto do lado dos negros, que passaram 40 anos oprimidos e estavam sedentos de vingança, quanto dos brancos, inconformados com as mudanças e temerosos de onde elas poderiam dar, Mandela conta com a sua perseverança e busca o caminho da leveza e da tolerância para superar as diferenças e unificar a nação em um sentimento de bem comum. Para tanto ele elege o rúgbi e o jogador Francois Pienaar (Matt Damon), o capitão ‘Bocks’como principal aliado neste desafio.
Metáfora – Sobre este substrato, é impressionante como Eastwood segue à risca a cartilha do cânone clássico do cinema, sendo sempre infalível – também, pudera, trata-se de seu 30o. E ele se dá a luxos como, por exemplo, resumir metaforicamente a história que vai contar na primeira cena, utilizando nada mais do que elementos audiovisuais: um carro passa no meio de dois campos de futebol – um, asséptico, onde os brancos treinam futebol americano, ou rúgbi; o outro, de barro batido, dos negros, onde eles jogam uma animada e caótica pelada dos sem-camisa.
Entre eles passa, a certa altura, por uma estrada empoeirada, um carro acompanhado de batedores. Todos param o que estão fazendo para ver do que se trata. Os negros começam a comemorar: é Nelson Mandela, que depois de 27 anos encarcerado por terrorismo e conspiração, está enfim em liberdade. Os brancos torcem o nariz e temem por seu futuro, ao ver que o “terrorista”que ameaça o seu status quo saíra do cárcere. Mas, mesmo com opiniões diversas, ambas as turmas param para ver o que acontece, com atenção e curiosidade. Nesta cena, como nas intenções do filme que se seguirá a esta primeira sequência, Mandela é o único capaz de unir os dois mundos.
Após esta cena, o visgo da armadilha de Clint já é inescapável. A partir daí começa uma competente reconstituição de época para reforçar o que na teoria de cinema chamamos de pacto de verossimilhança: elementos que guardam interlocução com a realidade nossa de cada dia mas que nos mantém ainda mais presos à fantasia da sala escura.
E vemos desfilar diante de nossos olhos a história de um homem que, segundo o personagem Pienaar (Matt Damon), mesmo após ter passado quase 30 anos na prisão, saiu disposto a perdoar seus algozes. E que buscou suas forças e inspiração no poema que dá nome ao filme, Invictus, escrito por William E Henley em 1875.
Trata-se, a grosso modo, uma fábula sobre tolerância, disfarçada no enredo que conta de como Mandela conseguiu, astuciosa e inteligentemente, unir as duas pontas contendoras de seu país através de uma paixão nacional e inquestionável. A parte clichê está no reforço fácil das emoções, seja com músicas grandiloquentes; com passagens sentimentais, como a visita de Pienaar à prisão onde Mandela cumpriu sua pena; ou com a filmagem quase televisiva das partidas de rúgbi. Mas, nada a reclamar: cinema é espetáculo, e para atingir o objetivo, estas armas são válidas.
Escrito por Ceci Alves