Anticristo (2009)

Talvez seja um pouco tarde pra falar de Anticristo, de Lars von Trier. Devo confessar que demorei a escrever por certa covardia intelectual.  A verdade é que saí do cinema sem conseguir definir se havia gostado ou não do filme, e ainda me sinto assim.

Para os desinformados, vale a pena marcar alguns pontos importantes. O primeiro é que, apesar do seu título, não se trata de um filme comercial de terror com temática religiosa. Longe disso: demônios só os da alma. Se pudéssemos classificá-lo, diria se tratar antes de um “filme de arte”. Outro aspecto relevante, é que Anticristo foi recebido com muita má vontade por parte significativa da crítica desde sua estréia no festival de Cannes deste ano. O diretor chegou a ser acusado de injustificável sadismo para com o público e de misoginia pelo modo como retrataria a personagem feminina. Tudo isso devido às explícitas cenas de sexo e mutilação genital: a mais comentada delas, inclusive, uma óbvia referência à clássica cena de mutilação ocular em Um Cão Andaluz (1929), de Bruñel.

Tendo ido preparado para muita “bagaceira”, devo dizer que o filme não me afetou no quesito estômago revolvido. Não há dúvidas que as cenas são fortes, mas nem de longe insuportáveis, como se alegou. E de fato, elas não são o centro do filme, mas a representação dos efeitos adversos da sua real temática: a impossibilidade e a temeridade de se tentar reduzir a experiência humana a uma lógica causal racional.

A real violência retratada no filme é a do marido que tenta terapeutizar a esposa incapaz de superar o luto pela morte do filho (mostrada na brilhante cena de abertura). Este homem tenta a todo custo reduzir a experiência da mulher a uma racionalização barata de psicologia de botequim. Quanto mais ele insiste mais ela afunda no abismo. Ou seja, rapidamente começamos a pensar que tudo é culpa do babaca do marido.

E assim Anticristo quase chega a um paradoxo. Como representar a insuficiência da lógica da causa e efeito se o marido é a causa da loucura da esposa? É surpreendente que neste momento haja uma sutil reviravolta na trama. Começamos a perceber sinais de que não se trata simplesmente da mulher como vítima da incompreensão e da prepotência masculina. Nem toda loucura daquela mulher pode ser reduzida a um efeito da ação daquele homem (e aqui von Trier está mais lacaniano que nunca). Antes mesmo dessa malfadada terapia familiar, a mulher (sem nome) já experimentava algo difícil de exprimir que não sob a forma de um gozo sádico ilógico, inconsciente, dirigido à maternidade e ao filho. Isso parece ter incomodado muitos feministas de plantão, bem mais que a cena da mutilação genital, entretanto este me parece o aspecto intelectual mais instigante e revolucionário de Anticristo.

Em Anticristo, como em outros filmes do diretor, o feminino expressa um excesso vital não redutível à lógica normal, dita masculina — algo também freqüente no cinema de David Lynch. Através da mulher o caos reina e Lars von Trier se regozija. Que seja a mulher a representar essa resistência a se submeter à imbecilidade da lógica utilitarista contemporânea me parece antes homenagem do que misoginia.

Por outro lado, e eis minha dúvida, o filme que me instigou intelectualmente me pareceu chato e monótono como experiência. Particularmente a cena final me pareceu boba, apesar de bela. Isso talvez decorra do fato de eu ter ido ao cinema muito “preparado”. De certo modo, não devo ter funcionado como “espectador-modelo” que o filme esperava e tentava construir.

Filme para poucos ou para ninguém?

Destaque para as referências ao cinema do diretor russo Andrei Tarkovski, em especial na belíssima fotografia inspirada em O Espelho (1975). Destaque também para a bela música da seqüência de abertura — a ária Lascia Ch’io Pianga, da ópera Rinaldo, de Händel —, que a Globo destruirá em infinitas repetições como trilha de novela.

Escrito por Adriano Oliveira

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3 comentários para “Anticristo (2009)”

  1. Leon disse:

    Massa, Adriano! Acho que Anticristo é um filme bastante conceitual, reflexivo, e não apenas espetáculo da violência como alguns haviam comentado. A primeira sequência é linda, maravilhosa, e acho que o filme tem sim pulso, têm estímulos para o pensar. Apesar de não me filiar muito a esta poética hiper-realista, gostei do filme, e também do seu texto. Enfim, concordo contigo, é um filme pra ser visto, debatido, revisitado. Tem Nietzsche também que pode ajudar.

    abraço

  2. Patthy disse:

    Não sou boa em critícas cinematográficas e penso que para haver uma profissão de crítico deve haver cânones a serem seguidos.
    Mas, como cada qual olha o filme segundo a sua subjetividade, me arvorei a escrever.
    O primeiro é que, várias cenas parecem inspiradas em pinturas impressionistas, campo, a tentativa de apreender efeitos de luz e outras temas medievos.
    Sobre a música, é realmente magnífica, mas contrasta com as cenas mais dramáticas que apelam para questões mais psicanalíticas que existenciais, em minha opinião. Contrapõe o “humano grotesco em cenas” e o que é canonicamente belo, em música clássica.
    Falo em psicanálise, porque faz referências a Freud (sexo e os traumas serem sexuais), mitos, arquétipos(idéia de sombras) trabalhados por Young e a Lacan por conta da comunicação, será sua referência?
    Então, está mais para Psicanálise de botequim que Psicologia. a não ser que você seja um Etólogo convicto.Para sustentar a tese de Psicologia, poderíamos citar Bolby com as discussões sobre luto patológico e luto normal. Mas, a forma que ele escolhe para tratá-la, bem como, as cenas em que há transferência, contra-transferência, delírios e alucinações, parecem mais influência da psicanálise.
    Sobre o que Leon escreveu, não vejo Nietzsche. E olhe que gosto de Filosofia. Sugiro outros Humanistas existencialistas Kierkegaard, Sartre, Merlau Ponty. A discussão ali, envolve a crença em algo além do humano; seu contato com a natureza transcendental.
    Eu gostei do filme, achei sim, bastante provocante por que critica ao mesmo tempo, a ciência (Psicanálise, Psicologia) e o conjunto de crenças do racionalismo e religiosidade.Ter ou não crenças em algo ou até a própria “humanidade” como discussão sobre a possibilidade de racionalidade.
    Como o próprio título do filme para mim, sugere. Apesar de saber que foi escolha fortuita segundo o próprio autor. Inconsciente? Será que viajei demais?
    Vou além, quando li as críticas e observações que estavam lá na sala da UFBA, descobri que Lars Von Trier fez o filme em um momento de depressão. Será que ele não é resultado da discussão: Tomar medicamentos ou não? Fazer ou não fazer análise (Psicoterapia?)
    Não seria melhor descobrir um pouco mais sobre as estátuas e os animais? Qual a funcionalidade e simbologia que se expressam na obra e, só depois, dizer que não sabe se gostou do filme?
    Uma coisa eu posso afirmar a vocês dois (Adriano e Leon): Vou assistir novamente! Para isso suas críticas serviram.
    Pensem a respeito!
    Atenciosamente,

  3. Adriano Oliveira disse:

    Pathy,
    na trama, a psicologia aparece na figura do marido, aparentemente um terapeuta mais voltado para o cognitivismo e as terapias comportamentais. Há até uma passagem onde a esposa faz uma ironia, insinuando que como ele não acredita em Freud, ele não deveria buscar o significado dos próprios sonhos. Daí poderíamos dizer que o filme parece mais simpáticos a uma abordagem psicanalítica da experiência humana, do que às terapias voltadas para a reeducação comportamental, mas isso seria uma hipótese de leitura.
    De todo modo, me parece que a psicanálise, principalmente a lacaniana, oferece uma série de ferramentas para entender alguns fenômenos humanos representados em Anticristo. Mas quando falei que Lars vom Trier era lacaniano, era claro uma provocação.
    Concordo com você que há espaço para aprofundar as análises em várias outros aspectos do filme, mas não considero que isso seja necessário para definir o gosto pessoal. Em geral gostamos de um filme e só depois passamos a analisá-lo. O gosto é algo mais visceral, tem mais a ver com a repercussão da obra nas entranhas do espectador. A análise é mais cerebral. O que me instigou em Anticristo é que já na exibição o filme me instigava intelectualmente, mas não tanto “corporalmente” (fora em belos momentos). Mas como deixei claro, isso não é uma crítica ao filme em si. De fato, me motivei a escrever no blog só após assistir a O Espelho, do russo Tarkoviski (homenageado nos créditos), que é nitidamente a fonte imediata de inspiração visual de von Trier nesse filme.

    PS: Jung não era exatamente psicanalista. Após romper com Freud, ele foi em outra direção e fundou a Psicologia Analítica, muito impregnada por um misticismo que Freud repudiava. Lacan também não simpatizava muito com ele, até porque conseguiu explicar fenômenos descritos por Jung (inconsciente coletivo, arquétipos…) através das teorias da linguagem.

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