Entrevista exclusiva com Jum Nakao

e1A “Costura do Invisível” foi um desfile-protesto. Como foi romper com o mercado?

Não é um rompimento com o mercado, mas uma forma de fazer com que o mercado e as pessoas que fazem o mercado – desde os consumidores, os designers, a imprensa, todos que fazem parte do processo – repensar sobre a forma de pensar. Fazer com que elas, ao ver algo impossível, algo de uma natureza quase surreal acontecer e desaparecer, repensassem seus valores, seus papeis e o que estão fazendo.

E de onde surgiu a idéia de fazer esse desfile?

Aí veio a história de fazer um desfile de papel, porque o papel é uma matéria tão frágil, tão efêmera. As pessoas não percebem que não importa do que é feito, como é feito, então um pedaço de papel pode ter permanência. É um trabalho que fala sobre a permanência do efêmero. As pessoas fazem as coisas como se aquilo não tivesse uma continuidade, e eu quis mostrar isso de uma forma poética, mesmo quando algo que é bem feito desaparece, ainda existe, porque foi bem feito. e6

Como é essa sua parceria com a Docol?

A Docol tem promovido esse evento, esse compartilhamento de saberes da área de moda com outras áreas. Acho que é um pensamento e um questionamento que não é restrito a quem trabalha com moda, mas com todos que trabalham com pessoas e com transformação de pessoas. O que você faz pode tocar uma pessoa. Por mais efêmero que seja escrever na internet, que não tenha materialidade, pode ter um valor incrível, mais concreto do que coisas materiais.

Reviver esse processo ainda mexe com você? Como é essa sensação?

Claro que mexe. É diferente cada vez que eu faço, porque é feito com muita troca. Essa palestra não existe se não tiver alguém para ouvir, alguém que se emocione com ela. Por exemplo, o que você escreve, se ninguém ler, é como se não existisse. Então você tem que fazer com amor, com que aquilo tenha alma, tenha vida e que seja capaz de animar no sentido de dar alma, de fazer com que elas descubram algo que elas não sabiam.
e5E cada vez que eu faço essa palestra é diferente porque eu falo com pessoas diferentes, é uma troca que eu tenho feito para as pessoas se transformarem. E para mim é uma oportunidade única ter uma empresa que me apóia, que acredita, e me abre uma capilaridade cada vez maior de estar falando com mais pessoas e talvez dessa forma eu consiga fazer com que aquilo que eu acho e acredito se torne realidade.
Tem uma frase de um padre que ele cuida de uma comunidade carente e ele escreveu num livro que “um sonho vivido sozinho é fantasia, e sonhado por muitos é realidade”. Então esse projeto nasceu em um segmento, mas nunca foi pensado para ficar em um só segmento, mas sim para interagir com outras áreas.

Falando dos seus outros projetos, como foi a parceria no projeto das garrafas pets?

e4Quem fez a exposição Quase Líquido foi Eduardo Srur. Quando ele me convidou para participar do projeto ele falou, “olha Jum, eu estou fazendo um projeto sobre reciclagem, em criar uma consciência nas pessoas, mas o que eu estou fazendo vai virar lixo depois e quando acabar a exposição o que a gente faz? E se você pegar aquele material todo e fazer umas jaquetas?” Eu fiquei pensando, olhando pra aquilo e pensei “nossa, se a gente fizer uma jaqueta daquele material as pessoas vão cozinhar!”. Aí eu fiquei sabendo que crianças iam participar e que o melhor que a gente podia fazer era começar educando desde pequenininho, desde criança. e3
Eu sou professor de pós-graduação e é difícil você mudar as pessoas na ultima etapa, que é a faculdade. Então transformar aqueles pets em mochila, porque um dia elas viram um objeto de arte ser transformado num objeto do cotidiano para transportar o material escolar delas, e assim elas vão estar entendendo o que é reciclar

Como você vê a profissionalização da moda e da exigência cada vez maior de diploma de graduação?

Eu acho que as faculdades estão muito erradas. Houve um tempo que um diploma era sinônimo de salvação e hoje a salvação é pensar em como mudar os rumos que nós estamos tomando. Nós precisamos cada vez mais de pessoas pesquisando e pensando em novas possibilidades, e não pessoas para perpetuar um sistema que ao meu ver já se demonstrou totalmente insuficiente e incapaz pra sobrevivência do mundo.
Você percebe em um ano que o trânsito piorou, a violência aumentou, o ensino está pior, as pessoas estão cada vez mais pensando menos e as pessoas ainda estão querendo tirar um diploma? Será que é essa a solução? Talvez para quem queira cobrar mensalidades isso seja incrível, mas eu não acho que isso seja a solução.

O que te inspira?

Andar de bicicleta. É uma forma de eu estar sentindo o vento na cara, de não estar dentro de um carro criando um ambiente isolado do mundo, ouvindo uma música que não é a música do mundo, uma temperatura que não é a temperatura que está lá fora. Quero olhar para as pessoas e sentir as mudanças de paisagens.
O desfile “Costura do Invisível” foi eleito como um dos mais importantes do século. Qual é o próximo passo?

É continuar caminhando. Quando eu fiz a coleção “Costura do Invisível” eu não sabia onde ia parar e eu acho que eu não cheguei aonde eu precisava porque as coisas não aconteceram. Se as coisas tivessem acontecido eu não estaria fazendo o que eu estou fazendo hoje, eu estaria fazendo roupa, moda. Infelizmente eu vivo num país aonde eu não posso exercer a minha função (estilista), eu tenho que criar uma nação.
Um país para mim é muito mais do que esses valores materiais, eu acho que país é muito maior no seu patrimônio imaterial, e o nosso é ainda tão pequeno que eu preciso continuar a sensibilizar e estimular e quando eu sentir que a cultura e o saber são valorizados aí sim eu vou poder voltar a fazer roupa.

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