Chumbiabo : Chumbo com diabo ?

18 de março de 2010

Quem mora na cidade do Salvador tem à disposição mariscos frescos e crustáceos da Baía de Todos os Santos diariamente. Eles podem ser comprados na saída do Terminal Marítimo de São Joaquim e no Mercado do Peixe vindos das ilhas da Baía, ou nas vielas de Plataforma trazidos pelas marisqueiras da Cidade Baixa.

Os saquinhos de 1kg são vendidos por valores que variam entre 10 e 15 reais : catados de aratu, de caranguejo ou siri e mariscos dos mais diversos nomes rala-côco, cadagondé, pegoari, sururu e a estrela deste post : o chumbinho.

Mariscos, quiabo e a velha pimentainha malagueta no saquinho

Mariscos, quiabo e a velha pimentinha no saquinho

O chumbinho é o da sacolinha do meio aí em cima. E o chumbiabo nada mais é que a junção do chumbinho com quiabo. “Inventado” pelas marisqueiras da Ilha de Itaparica, o chumbiabo é uma comida barata e gostosa. Quiabo, cebola, tomate, pimenta, coentro e chumbinho.  O caranguejo pode ser a entrada deste “manjar dos mares”.

Vivos são uma delícia de comer (para quem tem paciência) e uma chatice de limpar

Caranguejo : uma delícia de comer (para quem tem paciência) e uma chatice de limpar para o preparo

Perguntei à Dona Lurdes e a Dona Fábia como fazer. As marisqueiras lavam bem o chumbinho com água corrente e limão. Depois refogam cebola picadinha com tomate também picado. Logo em seguida vem o chumbinho e o quiabo cortado em rodelinhas e um pouco de água, pimenta de cheiro picadinha, coentro, sal a gosto e o velho dendê. Deixar cozinhar até ficar quase no ponto de um caruru.

Marisqueiras que logo cedo estão nas ruas

Marisqueiras que logo cedo estão nas ruas

As fotos do post foram tiradas  próximo ao Terminal de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, quando começava minhas férias.

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Arroz Carreteiro, Torresmo e São Jorge…

5 de março de 2010

Férias boas esta !!! Muita comida, carinho da família, velhos (e novos) amigos, além de boa comida.

Na passagem por Santa Bárbara conheci alguns fiéis alvinegros que montaram um Ponto de Encontro da Gaviões da Fiel onde se reúnem centenas de barbarenses (Santa Bárbara Doeste) e americanenses (Americana).

Corintianos de olho no telão

Corintianos de olho no telão

Corintianos que (como aqui na Bahia) gostam de acompanhar os jogos no estádio, mas como nem sempre dá certo, precisam de um espaço para torcer unidos. Aqui em Salvador a reunião se dá no tradicional bairro da Saúde.

Nação Corintiana em Salvador "vidrada" na TV no Bar do Ratinho

Nação Corintiana em Salvador "vidrada" na TV no Bar do Ratinho

Na sede de Santa Bárbara toda terça-feira rola um rega-bofe dos bons.

O cardápio varia do Risoto de Frango à Macarronada à Bolognesa : 5 reais o pratão. Quando estava por lá saiu um belo Arroz  Carreteiro.

Pratão por cinco "perna"

Pratão por cinco "perna"

Prá fazer um bom Carreteiro gosto de usar bacon, charque (carne seca) desfiado, pernil e calabresa em pedacinhos. Dou aquela “velha” queimada de alho no azeite, acrescento bacon e vou fritando o pernil, a calabresa e o charque desfiado. Aí você abafa com uma cebola e um tomate picadinhos com pimenta-do-reino, deixando secar até quase “pegar” no fundo da panela.

Coloque a água já quente (pode ser com um tablete de caldinho de costela ou bacon dissolvido) nas carnes e deixe cozinhar.

É bom dar uma esperadinha de meia hora para o arroz secar porque ele fica bem úmido.

Quanto a quantidade de tudo é no zóio do ralador, cê tá querendo demais, né  !!

O ralador de panela por lá é o Paulo ( irmão do Arlei e do Vinha : o trio de mosqueteiros alvinegros que coordenam a sede).

Uns trabalham...
...outros rangam.

Enquanto o Paulão trabalha lá em cima, outros rangam.

Para acompanhar o Arroz Carreteiro, o Paulão preparou salada de alface, cebola e tomate, e ainda fritou belos e carnudos pedaços de torresmo.

A barriga do porco fritando : coitado dos palmeirenses

A barriga do porco fritando : coitado dos palmeirenses

O "Senninha", eterno ídolo brasileiro, é o mascote da torcida

O "Senninha", eterno ídolo brasileiro, é o mascote da torcida

No fim de semana seguinte os mano todo foram para o Pacaembu e comemos, de fato, os Porco.

1 a 0 para o Timão em cima do Palmeiras.

A foto aí embaixo tirei na saída do estádio.

Detalhe da venda de bandeira (manto alvinegro) em frente ao Pacaembu

Detalhe da venda de bandeira (manto alvinegro) em frente ao Pacaembu

No próximo post o Chumbiabo, já ouviu falar ??? Pode procurar no Aurélio, Houaiss, Google, o catso que for, garanto que não vai achar…

É o inédito no Ralando . Se alguém acertar é meu convidado para um churrasquinho em jogo do Corinthians na Saúde.

Nesse dia ao invés de churrasco, fiz corvina recheada e sardinha

Nesse dia, na Saúde, ao invés de churrasco fiz corvina recheada e sardinha

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Comida caipira : Chouriço e Vaca Atolada !!

1 de março de 2010

Nas minhas férias, depois de descer de carro para Mucuri (924 km de Salvador)  e voltar à capital mais linda do Brasil, deixei Salvador para uma viagem mais “tipo família”.

Revi pai, mãe, irmão e grandes amigos em Santa Bárbara Doeste (120km de São Paulo).

A pista de corrida do Parque do Araçariguama onde faço meu treino quando estou em "Santa"

Vista do Parque do Araçariguama em "Santa", onde dou minhas "corridinhas" quando estou por lá

Creio que todo mundo já ouviu falar de Santa Bárbara por causa do temível, incomparável, avassalador e imbatível clube de futebol : União Barbarense. Time campeão não por uma, mas por duas vezes da concorrida Segunda Divisão do Futebol Paulista.

Símbolo do portentoso União Agrícola (não esqueça o Agrícola) Barbarense

Símbolo do portentoso União Agrícola (não esqueça o Agrícola) Barbarense

Tá bom !!! Se nunca ouviu falar do meu querido Ninhãozinho e em Santa Bárbara , pelo menos este moço aí voce conhece, né…

Barbarense no topo do mundo

Barbarense no topo do mundo

Pois é … César Cielo, o “nadadorzinho” campeão olímpico aí, é de Santa Bárbara.

E como Santa Bréola é “interior”, e no “interior” de qualquer Estado se come o que é bem raiz (não de mandioca), vamos falar de rango.

Toda vez que vou a Bréola City (como é carinhosamente chamada pelo barbarenses) me esbaldo de comer este embutido aí : é o Chouriço, feito do sangue (maior parte), míudos e couro do porco acrescido de sal e temperos como salsinha, cebolinha e pimenta.

Chouriço : da Espanha, Portugal e Itália para o interior de São Paulo

Chouriço : da Espanha, Portugal e Itália para o interior de São Paulo

Ele é comido crú. Com um limãozinho e azeite por cima é insuperável.

Aqui em Salvador é comum o povo nas ruas chamar todo tipo de embutido de chouriça. Inclua aí linguiças calabresas, toscanas e até salsichas…

Na verdade o chouriço do sangue do porco é uma iguaria da Península Ibérica. Assim como a alheira, feita com carne de porco e miolo de pão azedo.

Os ingredientes podem parecer estranhos porque todos são muito rudimentares e  rurais, afinal estes embutidos são feitos desta maneira por séculos na Europa de onde vieram trazidos pelos milhares de imigrantes que chegaram ao Brasil no início do século XX, principalmente ao interior de São Paulo.

O chouriço foi uma ótima entrada para o prato principal : a Vaca Atolada.

Originalmente ela é feita com costela de vaca, mas eu prefiro fazer com linguiça calabresa, linguiça fresca apimentada e pernil também fresco, bacon e toucinho.

A Vaca Atoada enche o "cabôco" de sustança

A Vaca Atolada enche o "cabôco de sustança"

Primeiro eu coloquei o toucinho prá fazer um “fundo” de óleo e “queimei” o alho. Daquele jeito : prá quase “pegar no fundo” da panela.

Depois acrescentei cebola, bacon, linguiça fresca em pedaços, pernil e a calabresa cortadinhos. À parte, cozinhei 4 quilos de mandioca (ou aipim como queira). Agora é só misturar as carnes ao aipim se desmanchando na água e deixar apurar no ponto do ralador. Para tempero gosto de usar louro, noz moscada, pimenta comari e salsinha picada para servir no prato.

Para cada quilo de aipim, calcule meio quilo de carnes (todas misturadas).

No próximo post, ainda em Santa Bárbara e também em São Paulo (capital), Arroz Carreteiro e Corinthians…

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Pé na estrada e cachaça !!!

18 de fevereiro de 2010

A caminho de Extremo Sul da Bahia passei por Nazaré das Farinhas, cidadezinha simpática do histórico Recôncavo Baiano do período do Brasil Colonia.

Rumo a Costa do Dendê

Rumo a Costa do Dendê

Conhecida também por ser a terra do eterno corintiano Vampeta, que cunhou a expressão Bambi para os queridos adversários são-paulinos e recuperou o Cine Rio Branco, construção histórica de Nazaré.

Na época campeão mundial pelo Corinthians

Na época campeão mundial pelo Corinthians

Este restaurante na beira da estrada vende um dos principais produtos da região. É claro, farinha !!! De copioba e muito boa…A vendedora disse que a farinha se chama “de copioba” por causa de uma antiga Fazenda Copioba, mas não senti muita firmeza na explicação.

O que mais chamou a atenção foi o acervo das cachaças vendidas por lá…

Êta armarinho bão...

Êta armarinho bão...

Tem até cachaça de bolso !!  É vendida como paçoquinha, dentro do pote.

Doses "homeopáticas" de prazer

Doses "homeopáticas" de prazer

São dezenas de marcas mineiras, principalmente de Salinas, e a tradicional ABAÍRA, feita na Chapada Diamantina por um pool alambiqueiros das cidades de Abaíra, Piatã e outros municípios desta microregião exportadora de cachaça.

cachaca-abaira-ouro1

Como este “ôreia” aqui, esqueceu de levar o recarregador da bateria da camera, a última foto da viagem até Mucuri, na divisa com o Espírito Santo é esta aqui.

Vista de quem se esbalda com a comida da fazenda

Vista de quem se esbalda com a comida da fazenda

Se trata da bela vista do Restaurante Casarão de Pedra especializado em comida “de fazenda”. Fica há mais ou menos 80 km antes de Itabuna indo pela BR 101. Parei na ida e na volta. Destaque para o Omelete de Queijo, o Bacalhau à Gomes de Sá e ao Pernil à Mineira.

Culiniariamente falando, digno de registro, só um Feijão Tropeiro muito bom vendido em uma barraquinha de praça no centro de Mucuri. Visitei Mucuri e Nova Viçosa na divisa com Espírito Santo e Minas Gerais, por isso a altíssima frequencia dos mineiros nestas praias ( e a qualidade do tropeiro).

As férias continuam em um próximo post numa viagem sobre as delícias da culinária do interior de São Paulo, com direito a uma paradinha no Pacaembu em dia de jogo Corinthians e Palmeiras…

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Feijoada e Samba !!!

11 de fevereiro de 2010

Vamos dar uma paradinha  na  viagem de férias e falar do que mais interessa agora… Carnaval !!!

Em Salvador quando se fala em comer no período do carnaval, não podemos deixar de lembrar da tradicional feijoada. Muita gente come a” feijuca” antes de cair na folia, na hora do almoço, sob o pretexto de “forrar o bucho” para enfrentar o pula-pula.

Então nada melhor neste post, do que misturar esta “instituição” culinária ao samba.

No último domingo fiz uma reportagem no bairro de Nazaré, onde a Turma do Canto da Praça fez a festa.

Sex, Sept e Octagenários em festa no Carnaval de Nazaré

Sex, Sept e Octagenários em festa no Carnaval de Nazaré

A galera é formada pela velha guarda dos carnavais que todos os domingos do ano curtem o chorinho da Banda do Canto da Praça : grupo de músicos da “antiga”. No Carnaval o chorinho dá espaço às gostosas marchinhas.

 A amizade dos antigos carnavais

A amizade dos antigos carnavais

Aproveitando a movimentação da praça, a turma do Feijão em Pé monta acampamento para garantir o rango dos foliões.

Tchurma que "rala a panela"

Tchurma que "rala a panela"

O nagé (tradicional prato de barro) sai a 10 reais acompanhado de arroz e salada. A responsável pelo panelão é Dona Iolanda.

Servida no agdá, dá água na boca (desculpem o cacófato)

Servida no nagé dá água na boca

A Feijoada é muito bem servida e de quebra tem mocotó prá completar o prato.

Tem mocotó com bastante fato também (é dia do cacófato)

Tem mocotó com bastante fato também

Atendendo ao pedido deste escriba, Dona Iolanda passou a receita tradicional da família para que você possa se arriscar a ralar a panela neste Carnaval.

Receita de Feijoada

10 kilos de Feijoada

Serve até 100 pessoas em nagé (prato de barro) , em pratos é possível servir até 160 pratos .

Ingredientes:

10 Kg de feijão mulatinho

Carnes:

05 kg de ponta de Agulha (charque)
04 pés de porco defumado
01 kg de toucinho barriga
01 kg de bacon
04 kg de calabresa
10 kg de carne verde capote (podendo ser utilizado também , músculo , peito sem osso , ponta de agulha)
06 ossos de patinho
03 kg de bucho (fato)
04 unhas (mocotó)

Carnes salgadas:
03 kg de carne de salpresa
02 kg de costela salgada
02 kg de costela defumada
02 kg espinhaço salgado
06 pés de porco salgado

Tempero:

5 molhos de hortelã
5 molhos de salsa
1 molho de cebolinha
2 kg de tomate maduro
1 kg de pimentão
3 kg de cebola branca
500 gr de extrato de tomate
100 gr de alho
1 litro de molho inglês
50 gr de folha de louro **
50 ml de óleo

Preparo:

Escolha o feijão retirando todos os resíduos (palha, pedrinhas) sem deixar as bandas quebradas, é bom peneirar o feijão ao final do processo, numa peneira grande. As bandas quebradas se acumulam no fundo da panela e corre o risco de queimar.

Limpe e dessalge as carnes salgadas utilizando uma panela com água fria , durante um período de 6hs , a água deverá ser trocada a cada 1 ½ h , na última troca de água levar ao fogo . (Ver item 7)

Selecione e limpe toda carne verde, mocotó e bucho, retirando todo excesso de gordura.Para limpeza do mocotó retirar a gordura amarela que fica entranhada nas unhas (esta gordura da um cheiro forte ao mocotó), cortar em pedaços de tamanho médio,pois  a carne diminui durante o cozimento.

Coloque o mocotó, o bucho e os ossos de patinho numa panela separada onde eles serão lavados com limão, esfregando nos pedaços cortados. Demolhar por 1h na água com limão (usar 15 limões).

Tempere carne verde. Utilizando 10 dentes de alho , 1 molho de hotelã , 1 molho de salsa , 8 cebolas grandes, 10 tomates , 3 pimentões , 5 colheres de extrato de tomate , 6 colheres de molho inglês, sal a gosto , este tempero deve ser pulsado no liquidificador e não batido , a carne fica demolhando por 1h .

Escorra o mocotó, o bucho e os ossos de patinho, e tempere da mesma forma que a carne verde, acrescente 10 folhas de louro, e leve ao fogo.

Depois de dessalgar, na última troca de água levar ao fogo para refogar, utilizando  8 dentes de alho, 5 cebolas, 50 ml de óleo.Não será necessário uso de sal. Retire a carne aos poucos e coloque na panela onde o feijão será cozido.

Refogue a carne verde na panela onde refogou a carne salgada aproveitando parte da gordura que se desprendeu.

Misture a carne verde com a carne salgada, leve ao fogo acrescentando folhas de louro. Coloque mais uma medida do mesmo tempero das carnes evitando uso de sal, na panela onde o feijão será cozido.

O feijão deve ser lavado durante 5 minutos em água corrente. Deixar o feijão hidratando durante 20 minutos para facilitar o cozimento.

Coloque o feijão com água na panela com as carnes, deixando por 1½ h .Após aproximadamente 1h faça uma mistura com parte do caldo do mocotó já na fase final de cozimento com o caldo do feijão. No Feijão em Pé separamos o mocotó, o bucho e os ossos, o mocotó tem sabor muito forte e nem todos apreciam.

Acrescente mais uma medida do tempero,  após 1h e 20min de cozimento , (10 dentes de alho , 1 molho de hotelã , 1 molho de salsa , 8 cebolas grandes, 10 tomates , 3 pimentões , 5 colheres de extrato de tomate , 6 colheres de molho inglês)

Acrescente a calabresa, as costelas e o toucinho no final do cozimento (1h 25min) para não espedaçar estes itens tem cozimento muito rápido.

Sirva o feijão com:
Farinha de copioba (branca), arroz branco, uma salada de ( pepino, tomate, cebola roxa, cebola branca, alface japonês) temperada com azeite, vinagre branco ou balsâmico e o molho de pimenta .

A turma do samba aí embaixo cai nesta feijoada sempre que o chorinho termina (a farra da música vai das 10h ao meioi-dia).

Os músicos : verdadeiros heróis da resistência

Os músicos : verdadeiros heróis da resistência

A cara da Feijoada é tão boa que não resisti. Depois de fechar a reportagem caí no prato.

Achei um lugarzinho prá bater o ovelho feijão

Achei um lugarzinho prá bater o velho feijão

Neste sábado de carnaval , dia 13, o Feijão em pé vai estar na Praça de Nazaré. É a concentração do maior bloco de travestidos de Salvador : As Muquiranas.

Todo mundo na folia do prato

Todo mundo na folia do prato

O telefone de contato da Dona Iolanda, que prepara a feijuca por encomenda, é 8761-9129.

BOA FOLIA PRÁ TODOS

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Depois das férias : Moqueca de Arraia na bagagem !

3 de fevereiro de 2010

Depois de um longo e tenebroso (MENTIRINHA : MARAVILHOSO) inverno (QUE NADA : VERÃO ) volto das férias curtidas no mes de janeiro. Depois de checar 2566 emails começo a postar algumas fotos tiradas durante uma viagem ao extremo Sul da Bahia e ao interior de São Paulo.

Antes de descer a Bahia rumo à última cidade do Estado (a simpática Mucuri) dei uma paradinha em Cairu, único município arquipélago do Brasil, e que abrange a Ilha de Tinharé onde fica o paraíso de Morro de São Paulo.

No ferry : de Salvador a Bom Despacho

No ferry : de Salvador a Bom Despacho

Depois de chegar à Itaparica, via ferry boat, seguimos para Graciosa logo depois de Valença. Em Graciosa a lancha rápida nos leva em 10 minutos à Cairu.

Lanchinha rápida : só 4 "real"

Lanchinha rápida : só 4 "real"

Gente, o lugar parece parado no tempo. Na cidadezinha, com menos de 10 mil habitantes, encontramos cenários como este aí da foto : a fachada do Convento de Santo Antonio criado em 1654.

Bandeirolas dão o tom festivo

Bandeirolas dão o tom festivo

Cheguei na cidade um dia depois de uma festança no começo do ano… Todos na cidade pareciam de ressaca depois de uma noite ao som do Psirico.

Quem deve ter trabalhado muito foi o enfermeiro desta peculiar “Ambulancha”.

Vê se pode !! Em ilha, é claro, só poderia ser assim mesmo...

Vê se pode !! Em ilha, é claro, só poderia ser assim mesmo...

A cidade guarda aquele jeitão gostoso do interior e a cultura local como os representantes da Marujada. Ao som dos pandeiros e uma cantoria arrastada eles lembram a conquista dos primeiros navegantes portugueses. Em cada casa ou barzinho os “marujos” molham o beiço na cerveja e cachaça ou no que mais “etílico”  for oferecido pelo anfitrião (como na festas de Folia de Reis).

Na rua esperando a birita

Na rua esperando a birita

É claro que não poderia faltar uma passadinha culinária, já que o Ralando a Panela estava ausente mais de um mes. Pegamos uma receita tradicional do povo litorâneo.

Em ilha : peixe. Se é peixe : é moqueca… e a receita da Dona Bela, que tem um pequeno restaurante logo na frente do atracadouro de Cairu, é bem tradicional…

Dona Bela : moquequeira de Cairu

Dona Bela : moquequeira de Cairu

Ela usa a arraia, peixe dos mais baratos e que é saboroso. O único porém, são aquelas cartilagens que ficam em alguns cortes da arraia. Dá um pouquinho de trabalho para retirar.

Dona Bela usa o que há de mais fácil de ser encontrado para temperar : cebola, tomate e coentro. Tudo bem picadinho, vai prá panela com arraia temperada com sal e limão. Nem 10 minutos é só servir. Um bom molhinho lambão acompanha o prato.

É isso !! No próximo post a viagem continua com um pouco de Nazaré das Farinhas, terra do eterno boleiro corintiano Vampeta.

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

COXA RECHEADA : ADOÇANDO O NATAL E 2010 !!!

18 de dezembro de 2009

Quem não gosta de uma coxa bem torneada, ops, torneada não, bem recheada ? Pois é o Ralando a Panela e o Rede Bahia Revista resolveram dar um charme na sua ceia de Natal ou Ano Novo com uma saborosa e tenra receita de Coxa de Peru recheada com nozes e frutas secas acompanhada de purê de castanhas portuguesas…

Purê e coxa fatiada decorados com damasco e nirá

Purê e coxa fatiada decorados com damasco e nirá

Fala verdade. Nem parece o Ralando a Panela, tamanha a sofisticação, né ?

Mas não é nada de outro mundo prá fazer, não viu.

Quem dá a dica é o chef Alexandre Vicki, um neto de polonesa, nascido em Curitiba e que manja tudo de cozinha, sem ter aquele ar pedante que aflora em muitos hiper-super-mega-chefs…Ele comanda as cozinhas do  Pestana Bahia Hotel e do  Pestana Convento do Carmo.

No foco do cinegrafista Bambam, Alexandre Vicki dá show.

No foco do cinegrafista Bambam, Alexandre Vicki dá show.

A pedido da Camilinha, nossa produtora do Rede Bahia Revista, Alexandre bolou esta receita especial para o programa que vai ao ar dia 27…

Nossa produtora que "marca" as receitas e nunca experimenta

Nossa produtora que "marca" as receitas e nunca experimenta

Primeiro passo: um dia antes.

Com uma faca bem afiada, desossar uma coxa de peru e marinar com vinho branco, louro, tomilho e mostarda.

Se preferir, pode usar também alho na marinada.

Se preferir, pode usar também alho na marinada.

Agora o recheio.

Manteiga, nozes, e frutas secas : damasco, figo, ameixa, suco de laranja, mel e ricota.

Vamos fazer uma redução…No popular : refogar bem na manteiga as nozes e as frutas picadas e acrescentar aos poucos, deixando evaporar, o suco de laranja que vai dando um toque cítrico em tudo. No final, colcocar umas tres colheres de mel para engrossar um pouquinho até o ponto de uma calda de caramelo (rapidinho).

Fica assim,a nossa redução do recheio.

Fica assim,a nossa redução do recheio.

Misture nossa redução numa ricota já moída. Tá pronto o recheio.

Agora é colocar a coxa em cima de um filme plástico e rechear. Acrescente  pedaços de fruta seca, que foram deixados separados, para dar um toque bonito quando fatiarmos a coxa. Depois de rechear enrole com bastante cuidado e firmeza no plástico. Tire duas tirinhas do plástico para amarrar nas duas extremidades. Assim não vai vazar recheio durante o cozimento.

Enquanto chef Alexandre enrola a coxa, chef Edson dá uma forcinha.

Enquanto chef Alexandre enrola a coxa, chef Edson dá uma forcinha.

Detalhe. O nosso cilindro de coxa (vai parecer um salsichão) será assado em banho maria com água pela metade da coxa entre 30 e 45 minutos conforme a temperatura do forno…Cada um conhece o seu, né !!!

Enquanto a coxa assa, vamos preparar o purê bem simples. Cozinhe as castanhas portuguesas com uma pitada de sal e amasse. Se achar muito caro, a dica do chef Alexandre é fazer o purê com  mandioquinha ou batata doce no lugar das castanhas.

Aí está as castanhas amassadas.

Aí está as castanhas amassadas.

Agora pique bem miúdinho shitake e nirá. Também pode substituir o nirá por alho poró (ou erva doce ou salsão, esta dica é deste reles ralador). No lugar do shitake pode ser champinhon.

As mãos rápidas do chef Alexandre picam o shitake.

As mãos rápidas do chef Alexandre picam o shitake.

Fazer um fundinho de azeite com bastante alho picado e misturar o purê com o cogumelo e o nirá picadinhos. Fica uma delícia….

Agora a gente tira a coxa e corta bem cuidadosamente em fatias. Não precisa deixar dourar. O charme dela é o aspecto tenro, molhadinho.

É uma dica bem legal para quem vai passar um Natal romântico.

Uma coxa e o acompanhamento servem duas pessoas. O chef Alexandre lembra que se for fazer prá família toda, é só colocar o recheio dentro do peru e servir o purê ao lado. Se preferir pode usar usar um pernil de cabrito ou porco e rechear da mesma maneira que a coxa de peru…

Valeu gente…Neste semana de Natal estou de folga…Volto prá ralar na TV, e a panela, na semana do Ano Novo.

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Caruru da terra !!!

14 de dezembro de 2009

Na internet voce vai encontrar centenas de receitas de caruru. Escolhi uma de alguém que conhece a fundo a história da culinária baiana.

Guilherme Radel é o nome do homem !!! Ao longo da vida estudou, experimentou e cansou de ralar panela com as mais diversas comidas baianas.

Lançou tres livros sobre esta culinária miscigenada (branca, índia e negra) : A cozinha sertaneja da Bahia, A cozinha praiana da Bahia e A cozinha africana da Bahia.  Foi dele que extraímos (dando uma editadinha, é claro) a receita do nosso caruru.

Não se trata de um livro de receitas, e sim, um compêndio indispensável sobre a confluência dos sabores e ingredientes europeus, africanos e indígenas que resultaram na nossa baianidade no prato. Radel descreve com impressionante clareza os alimentos e utensílios domésticos usados desde o século XVIII. Tem fotos belas e representativas.Vale a pena ter na biblioteca.Vamos para receita :

INGREDIENTES

100 QUIABOS

MEIO COPO AZEITE DE DENDÊ

2 CEBOLAS GRANDES EPASSADAS NO LIQUIDIFICADOR

MEIO COPO DE CAMARÕES SECOS, DESCASCADOS E PASSADOS NO LIQUIDIFICADOR

MEIO COPO DE CASTANHAS E MEIO COPO DE AMENDOINS PASSADOS NO LIQUIDIFICADOR

SAL

PIMENTA DE CHEIRO

- Escolher bem os quiabos (a ponta não pode dobrar, tem que quebrar). Cortar eles “de comprido” em 4 ou 5 partes e depois picar de meio em meio centímetro.

- Ferver o azeite de dendê. Refogue a cebola, as castanhas, amendoim e o camarão seco.

- Colocar aos poucos o quiabo mexendo com uma colher de pau. Depois de ir todo quiabo colocar água para cobrir toda a massa de quiabos. Reparar se a água não está secando enquanto cozinha e ir acrescentando água fervente aos poucos. Depois de uns 5 minutos da primeira fervura, baixe o fogo e continue a mexer.

- Colocar duas pimentas de cheiro raladas no céu. O caruru fica pronto com menos de meia hora de cozimento. Não precisa tirar a”baba” do caruru. Ela faz parte do prato.

Caruru de Santa Bárbara !!!

10 de dezembro de 2009

O Caruru é a expressão gastronômica mais popular e festiva da Bahia. Quem é de fora nem imagina que “Caruru” aqui, não é só o caruru (aquele com quiabo).

“Caruru” aqui em Salvador é muito mais do que isso !!!

A panela de caruru...

Vatapá que acompanha um bom caruru baiano

O Caruru completo vem com frango, vatapá, arroz, acarajé e abará (muitas vezes pipoca por cima de tudo). Ele é oferecido pelas famílias baianas aos amigos e familiares, geralmente, em agradecimento a um pedido alcançado junto a um santo ou orixá. É o sincretismo religioso da Bahia !!!

Caruru completo : o meu prato no dia

Caruru completo : o meu prato no dia

O caruru (o do quiabo) é um prato de origem afrodescendente. Ele é oferecido nas cerimônias do candomblé aos ibejis e erês (São Cosme e São Damião), à Iansã (Santa Bárbara) e à Xangô (São Gerônimo). Para cada orixá, um corte diferente de quiabo : o dos erês, por exemplo, é cortado bem picadinho. De Iansã, em rodelas. De Xangô, em lascas.

Caruru de camisa...

Caruru de camisa...

As fotos do post são de um caruru de Santa Bárbara, oferecido pela Dona Bia, cozinheira das boas e matriarca do Restaurante Rombiamar. No dia 4 de Dezembro (dia da santa) foram servidos quase duzentos pratos…

Agradecidos à Santa Bárbara...E de pança cheia !!

Agradecidos à Santa Bárbara...E de pança cheia !!

O Caruru foi oferecido para os amigos que frequentam a casa durante todo o ano. Em 2009, o Rombiamar ficou entre os melhores dez melhores butecos de Salvador no Festival Comida di Buteco. Concorreu com o Pastel de Siri Lambão, já postado neste blog.

Romilda : "raladora de panela" oficial do Caruru do Rombiamar

Romilda : "raladora de panela" oficial do Caruru

Este ralador comeu e aprovou o Caruru.

Valei-me Santa Bárbara !!!

A próxima postagem será da receita mais tradicional do caruru baiano…

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES

Frigideira de Cajivis (de Caju pra quem não é baiano)

2 de dezembro de 2009

A brincadeira com o nome aí no título é porque em Salvador nunca terminamos uma palavra em “u” quando se está perto de um amigo gozador (ou “tirador de xinca” para os cariocas, e um “bom sacana”, para o baiano).

frigideira-21

Mas é isso:  Frigideira de Caju. Aquela fruta que desprende um perfume delicioso e fornece um suco de primeira é o principal ingrediente desta receita.

Em todo Nordeste a fruta é encontrada em grande quantidade entre novembro e janeiro. Em São Paulo três cajus, bonitos, grandões, são vendidos em média por R$ 10. Aqui na Bahia, saindo de Salvador em direção ao interior, com 10 mangos dá pra comprar um bacia cheinha deles na beira da estrada !!!

Com essa abundância da fruta era de se esperar que algum inspirado “ralador de panela” iria criar um prato delicioso à base de caju.

Seu Kerto é o nome da fera !!!

Seu Kerto recebe a gente no sítio. Porteira aberta...

Seu Kerto recebe a gente no sítio. Porteira aberta...

Ex-contador, ex-ator (contemporâneo de Othon Bastos e Geraldo Del Rey, protagonistas de Deus e o Diabo na Terra do Sol, do genial e tresloucado Glauber Rocha) , seu Kerto resolveu deixar Salvador há mais de 20 anos para morar no sertão baiano, no município de Canudos.

Com uma mão danada de boa pra cozinha ele tem o restaurante mais procurado de Canudos. É um recanto, debaixo da sombra de um enorme cajueiro onde cabem 10 mesas !!!

É a cara da tranquilidade. O "Raso" se refere ao Raso da Catarina, região do sertão onde se escondia Lampião e seu bando.

É a cara da tranquilidade. O "Raso" se refere ao Raso da Catarina, região do sertão onde se escondia Lampião e seu bando.

Quem conhece as delícias da Bahia sabe o que é uma boa moqueca de siri catado. Pois é , a frigideira de caju lembra muito este prato e, pasmém,  sem levar siri !!!

A receita é simples. Anote aí os ingredientes :
UMA LATA DE ERVILHA ( se for tradicional como eu, use frescas)

UM SAQUINHO DE COCO RALADO ( Dona Maria… É melhor ralado na hora)

DUAS CEBOLAS

DOIS TOMATES PICADOS

TRES XÍCARAS DE CAMARÃO SECO

COENTRO À GOSTO (ou salsinha, cebolinha…)

15 CAJUS

AZEITE DE OLIVA

LEITE DE COCO ( de novo Dona Maria : o natural dá de 10 na garrafinha)

DOIS OVOS

PIMENTÃO, TOMATE E CEBOLA (só pra decorar, use a criatividade)

Simbora…lembra aquele moedor de carne da vovó ? Se voce não tem, morra de inveja, eu tenho… Se não tiver, use aquelo chato e moderno processador.

Pegue os cajus, esprema com as mãos e tire o suco. A gente vai usar o bagaço do caju pra misturar cebola, tomate, camarão seco e tempero verde.

Depois de misturado é só passar no moedor

Tudo misturado...

Agora é passar no moedor…

É o saudosismo dando as caras...

É o saudosismo dando as caras...

Depois de tudo triturado. Coloque no fogo azeite e leite de coco… Depois de esquentar, acrescente a mistura triturada.

Ponha um pouco de pó de camarão (é feito com a casca e cabeça do camarão, que a maioria das pessoas joga fora. Torrou no forno é só bater no liquidificador e peneirar.)

Depois de colocar o pozinho, deixe secar o caldinho e acrescente as ervilhas e o coco ralado.

Tá ficando bom...

Tá ficando bom...

Unte um pirex com manteiga e coloque o refogado todo… Separe as gemas das claras e bata as claras. Quando estiverem firmes, coloque as gemas. Essa mistura cremosa vai por cima de tudo. Decore com as azeitonas, pimentão e tomate.

Prá deixar bonitinho...

Pra deixar bonitinho...

Olha como fica bacana !!! E se saboreado embaixo da sombra do cajueiro fica melhor ainda !!!

Coisa linda...

Coisa linda...

Lembrando… Canudos é uma cidade riquíssima em história: todo brasileiro devia conhecê-la.

A Guerra de Canudos é o episódio mais dramático da vida republicana da Nação Brasileira. 20 mil sertanejos morreram defendendo o Arraial de Canudos em 1896/97 contra o Exército Brasileiro que tinha a ordem de “não deixar pedra sobre pedra”.

Centenas de “conselheiristas”, seguidores do beato Antonio Conselheiro, foram degolados com o conhecimento da alta oficialidade militar.

Vale uma visita à região onde está o Parque Estadual de Canudos. Ele é todo demarcado com as localidades onde ocorreram as batalhas.

conselheiro

Outro local imperdível é o Memorial de Canudos construído em homenagem à Antonio Conselheiro : ele guarda relíquias da guerra como restos mortais e artefatos militares e dos sertanejos crentes que viveram no século retrasado.

Vale a leitura de “Os Sertões”, de Euclydes da Cunha. Mas leia com “pai dos burros” do lado, rsrs…

É aquela velha história !!! Quando se conhece o passado não incorremos nos mesmos erros…

E como diz o sertanejo da região : “Nosso Senhor Jesus Cristo Seja Louvado”.

ABRAÇO

PANÇA CHEIA

SAUDAÇÕES